Aplausos

Graça Machel encerra temporada do Fronteiras Braskem do Pensamento

“Uma mulher é fonte de várias energias. Se reinventa, se posiciona muitas vezes em silêncio. Uma mulher é capaz de fazer as crianças estudarem, comerem, mesmo em situações de muita dificuldade. Elas têm que ser influenciadoras em todos os níveis”, afirma Graça Machel, uma das mais importantes ativistas africanas da atualidade. Ex-ministra da Educação de […]

04 setembro, 2017
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“Uma mulher é fonte de várias energias. Se reinventa, se posiciona muitas vezes em silêncio. Uma mulher é capaz de fazer as crianças estudarem, comerem, mesmo em situações de muita dificuldade. Elas têm que ser influenciadoras em todos os níveis”, afirma Graça Machel, uma das mais importantes ativistas africanas da atualidade. Ex-ministra da Educação de Moçambique e desde 2010 à frente do fundo internacional que leva seu nome, os projetos de Graça envolvem educação, direitos da infância e auxílio a mulheres empreendedoras no continente africano. Estes serão os temas da conferência que ocorre no dia 5 de setembro, às 20h30, no Teatro Castro Alves (Praça Dois de Julho, s/nº), encerrando a temporada 2017 do Fronteiras Braskem do Pensamento em Salvador. Vendas: www.ingressorapido.com.brInformações no site www.fronteiras.com/salvador ou pelo fone 4020-2050.

 

Nascida na província de Gaza, ligada desde muito cedo a organizações sociais para a manutenção dos direitos de mulheres e crianças, Graça Machel não chegou a conhecer o próprio pai, que morreu três semanas antes do seu nascimento. Por esse motivo, seu segundo nome, Simbine, significa “despedida”. Filha mais nova de uma família de origem humilde, cresceu e acompanhou o empenho e o esforço de sua mãe para criar sozinha os setes filhos.

 

Formada em Filologia da Língua Alemã pela Universidade de Lisboa, atuou como professora e lutou clandestinamente com a Frente de Libertação de Moçambique – Frelimo – durante a Luta Armada da Libertação Nacional. No início de sua vida acadêmica, Graça Machel ingressou no estudo superior em Portugal por integrar a Missão Protestante – e por estar entre os melhores alunos, para quem eram reservadas bolsas de estudo. A Frelimo, na qual ingressou em 1969, completou sua educação e chegou a ter a mesma importância da formação universitária, afirma Graça. “A Frelimo fazia muita questão de que os soldados não fossem apenas militares. Tínhamos de estar politicamente conscientes daquilo que estávamos fazendo, por que estávamos lutando, por que queríamos a independência. Por isso, a informação era fundamental. Por outro lado, eu dava aulas à noite para as moças do nosso grupo que não sabiam ler. Uma das minhas instrutoras, por exemplo, dava-me aulas durante o dia, mas à noite ela era minha aluna. Quando fizemos dez anos de luta armada, fui para o interior do país contar essa batalha, por meio das histórias de vida das pessoas. Recolhemos muitas informações junto dos jovens, das mulheres e dos camponeses. A Frelimo queria saber o que aqueles anos tinham significado na vida das pessoas. Era o papel do grupo do qual eu fazia parte: instruir, informar e ensinar os companheiros de luta”, conta Machel.

 

Nesse período, Samora Machel era o presidente da Frelimo e Graça um soldado raso, “mas, como eu tinha acabado de chegar da Europa, ele me procurou com o objetivo de entender o cenário de Portugal. Samora me fazia muitas perguntas, tivemos debates muito interessantes. Acho que foi ali que começamos a nos descobrir como pessoas. Foi assim que nos aproximamos”, recorda. Em 1976, os dois casaram-se e Graça se tornou a primeira-dama de Moçambique, atuando como ministra da Educação e Cultura no governo por 14 anos. Durante sua gestão conseguiu escolarizar a quase totalidade das crianças no ensino básico, num país onde 90% da população era analfabeta e menos de 10% falava português.

 

Após a morte do marido, em 1986, num acidente de avião em território sul-africano, Graça Machel seguiu com a atividade política e, em 1990, foi nomeada pela Organização das Nações Unidas para o Estudo do Impacto dos Conflitos Armados na Infância. O “Relatório Machel”, como ficou conhecido o documento, alertou o mundo para a gravidade de crimes como o alistamento de crianças soldados, sua exploração sexual e as sequelas traumáticas da violência de que participaram como autores e vítimas. O trabalho de campo realizado para a elaboração do relatório revelou o drama das pequenas vítimas de conflitos alheios às realidades africanas, na ex-Iugoslávia, Palestina, Timor e Colômbia. Em reconhecimento a este trabalho, Graça recebeu em 1995 a Medalha Nansen da ONU.

 

Um ano antes, em 1994, já havia criado a Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), organização não governamental com diversos projetos sociais que priorizam a educação de crianças contra a estigmatização e a exclusão. Para isso, Graça afirma que é necessário trabalhar com as comunidades e envolvê-las na tomada de decisões. “Alfabetizar uma mulher no seio de uma comunidade é como iniciar o trabalho de lapidação de um diamante”, diz Machel, e recorda de suas motivações para trabalhar pelas crianças e pelas mulheres. “Quando, em 1965, em Moçambique, fui conduzida ao Ministério da Educação e Cultura, tive que criar um programa de incentivo à educação de adultos e crianças. Em poucos anos, conseguimos atingir um bom número de pessoas. Depois disso, o país entrou em guerra e quase tudo foi destruído. O pior de tudo foi ver as crianças que estavam desabrochando serem arrasadas pela guerra. Uma revolta desenvolveu-se dentro de mim. As crianças tinham o futuro promissor e ninguém tinha o direito de tirar isso delas. Foi aí que me tornei a voz das crianças vítimas de conflitos armados”, relata. “Já com as mulheres foi diferente. É algo mais antigo. Nasci 20 dias depois da morte de meu pai e vivi num universo feminino. Durante a vida, fiz uma releitura para entender o papel de minha mãe e de minha irmã em minha vida e a importância da educação”, destaca.

 

Em meados dos anos 1990, por considerar-se uma das vítimas da guerra movida pelo regime do apartheid, Graça Machel sentiu-se obrigada a incitar o então novo regime da África do Sul, sob a presidência de Nelson Mandela, a retomar as investigações do acidente que vitimou Samora. Do encontro entre a renomada ativista e o primeiro presidente negro sul-africano nasceu o romance que encantou a imprensa internacional, e também o segundo casamento de Graça, em 1998, tornando-se a única pessoa no mundo a ser primeira-dama de mais de uma nação. Atualmente, Graça também é membro do Painel para o Progresso da África (APP), grupo constituído por dez distintas personalidades que defendem o desenvolvimento equitativo e sustentável da África. Entre as suas condecorações recebidas estão o Prêmio Kora Lifetime Achievement e títulos de Doutora Honoris Causa das universidades de Glasgow, Essex, Cape Town e Évora. Graça Machel também integra o The Elders, grupo que reúne grandes líderes globais que trabalham em conjunto pela paz e pelos Direitos Humanos.

 

Em 2010, a ativista fundou a Graça Machel Trust, organização de direito com foco na saúde e na nutrição de crianças, na educação, no empoderamento econômico e financeiro das mulheres, e no desenvolvimento de estratégias de governança e liderança femininas na África. O fundo possui diversos projetos, organizados em programas de direitos das mulheres e fomento ao agronegócio; direitos das crianças e promoção da educação e da boa nutrição; e de incentivo à participação política e visibilidade da nova geração de mulheres altamente qualificadas. Lançado em 2008, o programa de bolsas de estudo de pós-graduação, por exemplo, já oportunizou a 91 mulheres de origem rural ou desfavorecida o acesso à pós-graduação nas áreas de ciência, tecnologia, negócios e humanidades. “No nosso país, e em muitos países africanos, as mulheres são as principais produtoras de alimentos. Nossa principal fonte de alimentação são produtos cultivados por mulheres, não por grandes corporações. Mas, quando se discute a política de agricultura, elas não têm espaço. Um primeiro passo, então, é identificar as mulheres que podem intervir nas comunidades, mas o mais importante é dar condições para que elas próprias se integrem e elejam quem as representa”, ensina a ativista.

 

Outras duas grandes causas levantadas por Graça Machel são o trabalho em favor das vítimas de casamentos infantis e o combate a quaisquer tipos de racismo. “Devemos olhar para casamentos prematuros, desigualdade salarial, dificuldade de ascensão e violência contra a mulher pela mesma raiz: não se valoriza a mulher como se valoriza o homem. A questão de gênero é dos maiores problemas que a família humana enfrenta, ao lado da questão da raça. Ambos têm as mesmas características e afetam toda a sociedade”, diz. “A família humana também precisa reconhecer que tem preconceitos profundos com relação à pessoa de raça negra. Há razões históricas para isso, mas a história evolui e se transforma. E a pessoa de raça negra é que tem de se organizar para reclamar sua identidade e dignidade. Ninguém vai reconhecer você, se você não se valorizar. Cabe a nós reclamarmos o espaço e os direitos que nos são inalienáveis.” E finaliza: “O racismo não pode ser velado. Tem que ser aberto para que possa ser combatido. O reconhecimento da África do Sul sobre o fim do apartheid foi importante no processo de encarar essa situação. O apartheid era um problema global, como o racismo brasileiro é um problema global também”, alerta.

 

SOBRE O FRONTEIRAS BRASKEM DO PENSAMENTO

 

Fronteiras Braskem do Pensamento é um ciclo de conferências alinhado ao projeto cultural múltiplo Fronteiras do Pensamento – www.fronteiras.com – que aposta na liberdade de expressão intelectual e na educação de qualidade como ferramentas para o desenvolvimento. O Fronteiras do Pensamento realiza anualmente edições em Porto Alegre e São Paulo, e na edição especial em Salvador abre espaço para o debate e a análise da contemporaneidade e das perspectivas para o futuro, apresentando pensadores, artistas, cientistas e líderes que são vanguardistas em suas áreas de pesquisa e pensamento. Os valores básicos do projeto são o pluralismo das abordagens, o rigor acadêmico e intelectual de seus convidados e a interdisciplinaridade de ideias. Por isso o Fronteiras Braskem do Pensamento já trouxe à Bahia importantes nomes como Enrique Peñalosa, Leymah Gbowee, Wim Wenders, Edgar Morin, Manuel Castells, Contardo Calligaris, Luc Ferry, Salman Rushdie, Jean-Michel Cousteau e Valter Hugo Mãe, entre outros.

 

 

Fronteiras Braskem do Pensamento Salvador tem o patrocínio da Braskem e do Governo da Bahia, através do Fazcultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do estado, com realização da Caderno 2 Produções Artísticas.

 

SERVIÇO FRONTEIRAS BRASKEM DO PENSAMENTO SALVADOR 2017

 

DATAS E HORÁRIO: 5/9, às 20h30.

LOCAL: Teatro Castro Alves (Praça Dois de Julho, s/nº – Salvador/BA).

INGRESSOS: Ingresso individual – R$ 50,00 (inteira) e R$ 25,00 (meia).

COMO COMPRAR: Pelo site www.ingressorapido.com.br, na bilheteria do Teatro Castro Alves e nos postos de vendas do SAC, nos shoppings Barra e Bela Vista. Informações sobre vendas pelo fone 3003-0595.

INFORMAÇÕES SOBRE O FRONTEIRAS BRASKEM DO PENSAMENTO: Na Central de Relacionamento Fronteiras pelo fone 4020.2050 e no portal www.fronteiras.com/salvador

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